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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Doação não é descarte

Pessoal, relutei muito, mas sinto que é minha obrigação relatar essa história que virá a seguir.

Tempos atrás optei pela adoção de uma anjinha, mais uma para fazer parte da nossa grande família de patas e bigodes. Sem muitas exigências, apenas vi e me apaixonei. Não tinha mais volta.
E por não ter mais volta, não fui capaz de captar as ondas, eram meus sentidos tentando me avisar de algo importante. Eu não sabia que estava prestes a descobrir mais um tipo de descaso: o descarte. Este, enganado de cuidado, fantasiado de carinho, esconde o mais triste dos fantasmas humanos: a incomprensão. Incompreende-se a vida, incompreende-se os valores, incompreende-se principalmente o sentido do amor.
Assim, quando uma vida se torna um problema e você não é tão mau a ponto de jogá-la na rua, procura um novo fim para ela. Desde que se livre. Desde que não pareça que você não a quer. Desde que ninguem perceba que aquilo vai ser um problema.
Acontece que tem gente que não acha que os obstáculos da vida são um problema. Espero que os outros que restaram da ninhada, assim como a mirrada Aika, encontrem gente que compreenda. E simplesmente os respeitem como vidas.
Gente, essa é a Aika, a mais nova garotinha da minha família. Adotei-a com o diagnóstico de uma pneumonia em recuperação e acabei descobrindo que tinha Cinomose. Não era uma Cinomose desavizada. Era sabida, escondida. Um descaso que fez essa doce menina minguar, secar, sofrer, tremer, entristecer... É uma vida que estava sendo negada por negligência pura. Agora já a amamos. E ela sabe. Espero que agora ela aprenda que ser amada é ser cuidada, acompanhada, alimentada, amparada. Porque agora ela pode ter uma crise no meio da noite. Terá alguém lá para dar o remédio certo, na hora certa. Não importa a hora, nem o preço do remédio, nem a reunião amanhã cedo.
Estou consciente de que talvez tenhamos chegado tarde demais. Mas no fundo acredito que ela, de tão boazinha, vai me obedecer e tratar de ficar viva.